Especialistas apontam maior resiliência fiscal e bancos centrais independentes em economias em desenvolvimento frente a novas turbulências.

Os títulos de dívida e as moedas dos mercados emergentes sofreram fortes oscilações durante a crise da dívida da zona do euro, há 15 anos, mas hoje estão mais bem preparados para resistir a uma nova turbulência desse tipo, segundo avaliação de analistas financeiros internacionais.

A preocupação com um possível contágio aumentou nas últimas semanas devido à alta no prêmio dos títulos franceses em comparação aos alemães, além do encarecimento do petróleo causado por conflitos geopolíticos no Oriente Médio e na Ucrânia, conforme informação divulgada por valorglobo.

Diante desse cenário global desafiador, gestores de fundos e estrategistas globais analisam o comportamento e a robustez das contas externas das economias em desenvolvimento, destacando tanto fatores de proteção quanto pontos específicos de atenção fiscal.

Resiliência estrutural das economias em desenvolvimento

Segundo Carol Lye, gestora de fundos da Brandywine Global Investment Management em Cingapura, os mercados emergentes apresentam hoje dinâmicas fiscais mais sólidas e contas externas robustas em comparação com o cenário de 2011.

A especialista destaca que os rendimentos nominais elevados proporcionam uma resiliência estrutural importante, enquanto o posicionamento reduzido dos investidores diminui os riscos de vendas forçadas de moedas locais em caso de contágio europeu.

Eric Fine, chefe de dívida ativa de mercados emergentes da VanEck em Nova York, reforça que os emissores possuem fundamentos sólidos e bancos centrais independentes, que já demonstraram capacidade de atravessar crises anteriores como a pandemia.

Vulnerabilidades fiscais e riscos em países específicos

Apesar do otimismo geral, analistas alertam que a liquidez pode se deteriorar rapidamente e que alguns países apresentam maior vulnerabilidade devido ao aumento de déficits públicos e desequilíbrios macroeconômicos locais.

No Brasil, o déficit fiscal nominal subiu para quase 10% do Produto Interno Bruto, enquanto a dívida pública ultrapassou 80% do PIB, exigindo atenção dos investidores quanto à implementação futura de medidas de ajuste críveis.

Na Europa Central e Oriental, Simon Quijano-Evans, estrategista sênior da Macro Hive em Londres, aponta que países como a Polônia estão mais expostos à interdependência com a zona do euro, tendo inclusive sofrido rebaixamento recente de nota de crédito pela Moody's Ratings.

Oportunidades de investimento em títulos locais

Para gestores como Edwin Gutierrez, chefe de dívida soberana da Aberdeen Investments em Londres, uma eventual liquidação de ativos provocada por turbulências na Europa poderá se transformar em uma expressiva oportunidade de compra.

A Aberdeen tem buscado proteção ao investir em títulos denominados em moeda local de mercados de fronteira, a exemplo de Nigéria, Egito e Cazaquistão, cujos papéis não apresentam correlação direta com os mercados desenvolvidos.

Enquanto isso, o mercado global acompanha a divulgação de novos dados de inflação em nações como China, Índia e Argentina, além do Produto Interno Bruto da Malásia e dos indicadores comerciais chineses.

Perguntas Frequentes

Os mercados emergentes estão preparados para uma nova crise da dívida europeia?

Sim, analistas afirmam que os países em desenvolvimento melhoraram suas situações fiscais, possuem bancos centrais independentes e contam com rendimentos elevados que oferecem maior proteção contra turbulências externas.

Quais são os principais riscos fiscais apontados para o Brasil?

O Brasil apresenta um déficit fiscal nominal próximo de 10% do PIB e uma dívida pública que superou 80% do PIB, o que gera apreensão nos investidores quanto à necessidade de uma implementação fiscal crível.

Como os mercados de fronteira protegem os investimentos?

Países de fronteira como Nigéria, Egito e Cazaquistão emitem títulos em moeda local que não apresentam correlação direta com os mercados de títulos dos países desenvolvidos, servindo de proteção contra contágios globais.