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Polvos são espertos o suficiente para usar o espelho, indica novo estudo

Polvos podem aprender a usar um espelho para localizar objetos que não conseguem enxergar diretamente, indica um estudo publicado em junho na revista Current Bi

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29 de setembro de 2026 às 15:54
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Polvos são espertos o suficiente para usar o espelho, indica novo estudo

Polvos podem aprender a usar um espelho para localizar objetos que não conseguem enxergar diretamente, indica um estudo publicado em junho na revista Current Biology. Em um experimento conduzido com três exemplares de polvo-da-Califórnia (Octopus bimaculoides), os animais identificaram, a partir de um reflexo, em qual lado do tanque estava uma presa virtual e seguiram até o ponto correspondente. Os três polvos escolheram o lado correto em 73% das tentativas. Em parte dos acertos, eles fizeram algo particularmente interessante: em vez de avançar diretamente para o reflexo, escalaram a lateral da estrutura onde estavam para alcançar um ponto que permanecia visualmente oculto.

Para os pesquisadores, o comportamento sugere que os animais conseguiram combinar a informação fornecida pelo espelho com uma representação espacial do tanque. Embora essa capacidade já tivesse sido observada em vertebrados, trata-se da primeira vez que ela é documentada entre seres invertebrados. ## Como foi feito o experimento De forma a conduzir o experimento, os pesquisadores primeiro precisaram acostumar os polvos ao espelho. A intenção era evitar que os animais interpretassem o próprio reflexo como outro polvo e reagissem de maneira defensiva. “Você vê vídeos em que colocam espelhos na selva e os animais se assustam. Então, o primeiro passo foi fazer o animal entender que não há ameaça alguma vinda do que eles veem”, explica a psicóloga Mary Kieseler, coautora do estudo, em entrevista à revista Popular Science.

Quando os polvos passaram a se comportar normalmente diante do espelho, começou o treinamento. Veja no esquema abaixo: Caranguejos foram colocados dentro de um recipiente que os animais já sabiam abrir e escondidos fora de sua linha direta de visão. Para encontrá-los, eles precisavam recorrer ao reflexo. No início, os polvos iam diretamente até o espelho.

Depois de 10 a 12 tentativas, aprenderam a contorná-lo e a seguir até o local onde as presas estavam. Na etapa seguinte, os cientistas substituíram o crustáceo real por uma versão virtual, projetada em uma tela. A mudança evitou que sinais químicos ajudassem os polvos a encontrarem a presa. “Os polvos têm quimiorreceptores e não queríamos que eles sentissem o cheiro ou o gosto do caranguejo de verdade”, lembra Kieseler. ## Mais complexo do que seguir a imagem O principal interesse dos pesquisadores estava em saber se os polvos conseguiriam usar o reflexo para inferir a posição real de um objeto escondido. Por isso, em cada teste, o caranguejo virtual aparecia de um dos lados do tanque e só podia ser visto no espelho.

Assim, o polvo precisava sair de uma pequena câmara, contornar a estrutura e chegar ao lado correspondente para receber uma recompensa. A partir disso, verificou-se que os animais não estavam simplesmente se aproximando da imagem refletida. Em 59% dos testes em que acertaram o destino, eles escalaram a parede lateral da câmara, em vez de seguir o percurso mais óbvio. Surpreendentemente, um dos polvos, inclusive, realizou esse movimento já na primeira tentativa.

Para o estudo, esse comportamento é compatível com uma habilidade chamada percepção mediada por espelho. Em termos simples, isso significa usar uma imagem visível — o reflexo — para descobrir a localização de algo que está fora do campo de visão direto. ## Experimento não prova autorreconhecimento Apesar da associação frequente entre espelhos e inteligência, os pesquisadores não demonstraram que os polvos reconhecem a própria imagem. O chamado teste do espelho de autorreconhecimento procura verificar se um animal entende que seu reflexo representa o próprio corpo. Em geral, isso envolve colocar uma marca em uma região que o animal não consegue observar diretamente e analisar se ele tenta examiná-la ao se ver no espelho.

Grandes primatas e elefantes já apresentaram comportamentos compatíveis com esse tipo de teste. No caso dos polvos, porém, a aplicação é mais complexa, entre outros motivos porque a pele é altamente sensível e pode detectar estímulos que uma marca produza. Daí porque a equipe optou por investigar primeiro uma habilidade mais básica: a utilização do espelho como ferramenta de navegação. “Se eles conseguirem fazer isso, podemos prosseguir”, avalia a autora. ## Solução desenvolvida de forma independente O resultado também chama atenção por causa da distância evolutiva entre polvos e seres humanos. Cefalópodes e vertebrados seguiram caminhos distintos há mais de 520 milhões de anos, mas desenvolveram algumas capacidades perceptivas e cognitivas semelhantes. “Parece que os mecanismos cognitivos necessários para fazer isso [usar espelhos] podem ser considerados evolução convergente”, sugere Kieseler.

Segundo a pesquisadora, caso os polvos estejam de fato usando o espelho dessa maneira, trata-se de uma capacidade desenvolvida independentemente da nossa linhagem. A hipótese faz sentido no contexto da vida desses animais. Polvos caçam e também precisam escapar de predadores em ambientes complexos, como rochas e recifes. Nesse cenário, perceber distâncias, obstáculos e diferentes caminhos pode ser especialmente importante. “A compreensão que eles têm do ambiente parece ser mais tridimensional do que a nossa.

Nós não conseguimos simplesmente subir uma parede. Os polvos conseguem”, observa a pesquisadora. “Os humanos tendem a pensar que quanto mais distante de nós algo parece, menos inteligente é. Mas esses animais são muito inteligentes à sua maneira.”

Conteúdo originalmente publicado por galileu. Reproduzido com fins informativos.

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