Nova revisão internacional questiona eficácia rotineira de canabinoides na psiquiatria e exige cautela médica.
As evidências científicas sobre o uso medicinal de canabinoides em transtornos mentais ainda são consideradas escassas para a maioria das indicações médicas, segundo uma ampla revisão internacional publicada na revista The Lancet Psychiatry.
A pesquisa analisou dezenas de ensaios clínicos realizados entre 1980 e 2025, envolvendo milhares de participantes para avaliar a eficácia e a segurança de compostos derivados da planta Cannabis sativa, como o canabidiol e o tetra-hidrocanabinol.
Apesar de sinais promissores em condições específicas, o uso rotineiro desses produtos na psiquiatria é raramente justificado com base nos dados atuais, conforme informação divulgada por pesuisa.
Evidências limitadas para transtornos mentais
Pesquisadores de universidades da Austrália e do Reino Unido avaliaram 54 ensaios clínicos randomizados, concluindo que a qualidade geral das evidências é baixa ou muito baixa para quase todas as aplicações em saúde mental.
O estudo apontou sinais promissores apenas para insônia, transtorno do espectro autista, síndrome de Tourette e transtorno por uso de cannabis, embora o acompanhamento médio tenha sido de apenas cinco semanas.
Por outro lado, os cientistas não encontraram comprovações significativas de eficácia contra ansiedade, anorexia nervosa, transtornos psicóticos, estresse pós-traumático e dependência de opioides.
O descompasso entre mercado e ciência
Especialistas brasileiros, como o psiquiatra José Alexandre Crippa, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, destacam que o apelo popular fez os produtos chegarem às farmácias antes da consolidação científica.
Segundo o pesquisador Lucindo José Quintans Júnior, da Universidade Federal de Sergipe, o entusiasmo comercial correu mais rápido que os ensaios clínicos, gerando uma assimetria entre eventos adversos e benefícios incertos.
O Conselho Federal de Medicina autoriza no Brasil o uso de óleo de canabidiol apenas para epilepsias refratárias graves na infância e adolescência, mantendo restrições para outras áreas da saúde mental sem respaldo robusto.
Necessidade de novas pesquisas clínicas
O psiquiatra Luís Fernando Tófoli, da Universidade Estadual de Campinas, reforça que os transtornos mentais estão entre as principais razões para o uso medicinal, apesar de serem justamente as indicações com evidências mais fracas.
Para a comunidade científica, o cenário atual não significa o fim das pesquisas, mas a urgência de ensaios maiores, com doses definidas, formulações padronizadas e acompanhamento de longo prazo.
A posição recomendada pelos especialistas é de cautela, evitando tanto a condenação precipitada quanto a celebração sem base empírica sólida dos tratamentos com canabinoides.
Perguntas Frequentes
O uso de cannabis é eficaz para ansiedade e depressão?
A revisão científica mais recente indica que não há comprovação significativa de eficácia de canabinoides para ansiedade, e faltam ensaios clínicos randomizados sobre depressão.
O que diz o Conselho Federal de Medicina sobre canabinoides?
No Brasil, o CFM autoriza o uso medicinal de óleo de canabidiol apenas para epilepsias refratárias graves na infância e adolescência, além de síndromes específicas.
Quais transtornos apresentam sinais promissores com cannabis?
A pesquisa apontou sinais promissores para insônia, transtorno do espectro autista, síndrome de Tourette e transtorno por uso de cannabis, embora com evidências de baixa qualidade.
Por que há cautela na prescrição médica de canabinoides?
Especialistas destacam que os produtos geram eventos adversos consideráveis e que os benefícios terapêuticos na psiquiatria ainda carecem de comprovação científica robusta.

