Pesquisa internacional revela que comportamentos de controle e vigilância online são normalizados por casais jovens.

Um estudo conduzido em dez países revelou que jovens entre 16 e 24 anos frequentemente falham em reconhecer comportamentos abusivos em relacionamentos amorosos quando praticados por meios digitais. A pesquisa aponta que hábitos como compartilhar a localização em tempo real e entregar senhas de celulares são vistos erroneamente como provas de afeto e intimidade.

O fenômeno foi analisado pela psicóloga britânica Nina Jane Patel e publicado no Journal of Online Trust and Safety em outubro de 2026. O levantamento investigou especialistas que atuam no apoio a vítimas de violência em países como Brasil, Estados Unidos e África do Sul, conforme informação divulgada por galileu.

A investigação detalha que a vigilância constante se normalizou a ponto de dificultar a distinção entre amor e controle, criando desafios inéditos para a segurança emocional dos jovens. Especialistas alertam que a tecnologia amplia riscos quando combinada com a falta de preparo institucional e social.

Impacto da vigilância digital nos relacionamentos

A psicóloga Nina Jane Patel definiu o problema como violência entre parceiros íntimos facilitada pela tecnologia, conhecida pela sigla TFIPV. O conceito abrange o uso de aplicativos de mensagens, redes sociais e inteligência artificial para vigiar, coagir ou controlar cônjuges e ex-parceiros.

Nos Estados Unidos, a diretora executiva Tracey Vitchers relata que estudantes universitários chegam a grupos de apoio com dúvidas sobre a normalidade de terem sua localização rastreada. Na África do Sul, o ativista Sidwell Sehoana ouviu de uma jovem que entregar a senha ao namorado era uma exigência natural do namoro.

Origem do controle dentro do ambiente familiar

O estudo aponta que a raiz desse comportamento muitas vezes começa dentro de casa, onde pais e responsáveis rastreiam filhos e exigem senhas sob o argumento de segurança. A mensagem implícita absorvida na infância é de que quem ama não tem nada a esconder, facilitando a aceitação da mesma postura por parceiros futuros.

Especialistas da Suécia e da Espanha alertam que crianças e adolescentes acabam sendo treinados para aceitar a vigilância como um estilo de vida normal. Essa dinâmica gera a chamada lacuna de linguagem, onde jovens sentem desconforto, mas não possuem vocabulário para classificar o ato como abuso, preferindo tratá-lo como ciúme.

Dificuldades no apoio institucional e jurídico

Quando decidem buscar ajuda, as vítimas frequentemente encontram barreiras no suporte oferecido por familiares, educadores e autoridades policiais. Conselhos simplistas como apenas desligar o celular ignoram que o aparelho representa o principal elo social e escolar dos jovens afetados.

Casos reais relatados no Brasil e na Inglaterra mostram delegacias e leis despreparadas para lidar com o assédio digital, muitas vezes culpabilizando a vítima ou exigindo estereótipos tradicionais de violência doméstica que não se aplicam a adolescentes e jovens adultos.

Novos riscos ampliados pela inteligência artificial

O cenário de desamparo institucional ganha contornos mais complexos com o avanço da inteligência artificial, identificada em seis dos dez países monitorados como nova ferramenta de controle. A extorsão com o uso de deepfakes e chatbots que validam o comportamento abusivo representam ameaças crescentes.

Diante disso, organizações de proteção recomendam que a prevenção foque sempre no comportamento controlador e não na plataforma tecnológica utilizada, ajudando os jovens a identificarem sinais de alerta em suas relações afetivas.

Perguntas Frequentes

O que é a violência digital no namoro segundo o estudo?

É o uso de celulares, redes sociais e rastreamento de localização para vigiar ou controlar parceiros, prática estudada pela psicóloga Nina Jane Patel.

Por que os jovens não reconhecem o abuso online?

Porque comportamentos de controle foram normalizados desde a infância pela vigilância parental e pela cultura de que o amor exige total transparência.

Como a inteligência artificial afeta os relacionamentos abusivos?

A inteligência artificial é usada por agressores para criar deepfakes, extorquir vítimas e gerar mensagens controladoras por meio de modelos de linguagem.

Quais são os principais sinais de alerta do controle digital?

O estudo destaca nove sinais, incluindo ignorar mensagens intencionalmente, chantagear com capturas de tela e exigir senhas como prova de amor.